Recentemente, rolando pela timeline do Instagram, duas situações me chamaram atenção: as pessoas estavam reclamando que os conteúdos postados tinham sido escritos por IA. Eram dois artigos, como este aqui, de dois jornais reconhecidos nacionalmente. Por curiosidade, resolvi ler os textos para entender o que fez as pessoas acharem que eles tinham sido redigidos totalmente por inteligência artificial.
Os dois artigos eram bem escritos, sem erros de gramática, pontuação e afins. As frases eram bem construídas e, o mais importante, a estrutura dos dois textos era muito parecida. A narrativa tinha lógica, mas não tinha conexão. E esse é o ponto que os leitores repararam, e que qualquer consumidor e público-alvo também perceberá. Um estudo recente da Hootsuite revelou que 62% dos consumidores são menos propensos a engajar com um conteúdo se souberem que ele foi gerado por IA.
Por ser uma ferramenta de fácil acesso, a IA aparentemente resolveu dois grandes problemas do mercado:
- A democratização da escrita: hoje, qualquer pessoa pode elaborar textos corretos para e-mails ou redes sociais.
- A demanda por agilidade: a capacidade de produzir altos volumes de conteúdo em prazos curtíssimos.
O resultado disso, porém, é que vemos cada vez mais textos genéricos e padronizados, sem o humor sutil, a empatia e a vivência do cotidiano — algo que as máquinas não conseguem ler.
O ponto não é abdicar ou vilanizar o uso dessa ferramenta, mas entender o ponto de equilíbrio entre o humano e o algoritmo para criar narrativas que, mais do que bem escritas, sejam estratégicas e tenham um real significado para as pessoas e para as marcas.
A lauda branca do Word
A escrita é um trabalho criativo e em tempos de alta performance e produtividade, com entregas constantes, a inovação pode sair prejudicada. Você precisa entregar conteúdos em um prazo curto, mas está bloqueado criativamente. A IA está aí, pronta para ajudar, então por que não usá-la? Afinal, o mercado já comprou essa ideia: projeções do Gartner apontam que, até 2025, 30% das mensagens de marketing enviadas por grandes corporações serão sintéticas. E realmente, ela pode ser uma ferramenta interessante para auxiliar em momentos de estagnação.
Mas é importante lembrar que ela deve servir como base e não como o todo. A IA opera por probabilidade estatística, prevendo a próxima palavra mais provável com base em trilhões de dados passados. Por outro lado, o ser humano escreve a partir do vivido. Por mais que você crie um prompt completo, com todos os dados de tom de voz e do’s e dont’s da marca, ela não será capaz entregar um material que entenda todas as nuances culturais da empresa.
Conteúdo envolve, mas com base técnica
O futuro da comunicação corporativa também está baseado em uma técnica essencial: a estruturação dos dados para a leitura das máquinas, a chamada Machine Readability. Se antes escrevíamos pensando no bot do Google, repetindo palavras-chaves e técnicas de SEO, hoje o foco é a IA. Os usuários a utilizam diretamente para pesquisar e perguntar sobre a cultura, história ou compromissos ESG de uma marca. Se a narrativa corporativa for confusa, inconsistente ou estiver escondida em arquivos não indexados, a IA fará o que há de pior na tecnologia generativa: ela vai alucinar e inventar informações para preencher as lacunas.
Quem não conta a sua história com clareza estrutural para os algoritmos corre o sério risco de tê-la inventada por eles.
A Machine Readability é a nova gestão de reputação. O trabalho do profissional de conteúdo hoje não é apenas escrever, mas ser o arquiteto da informação. O alerta é urgente: o Gartner prevê que o tráfego dos motores de busca tradicionais cairá 25% até 2026, à medida que os usuários migram para chatbots e respostas gerativas. Entregar dados limpos e estruturados às máquinas é a única forma de garantir que elas contem ao mundo exatamente a verdade da sua marca.
Do operacional ao estratégico
A grande virada de chave para a comunicação na era da inteligência artificial é entender que a tecnologia não veio para substituir o comunicador, mas para transformar o seu papel. A sua função deixa de ser apenas um redator operacional para se tornar o curador criativo e guardião da verdade da marca.
Para que uma empresa consiga romper o ruído dos conteúdos genéricos e plastificados, ela precisará abraçar uma dualidade essencial:
- Arquitetura Técnica: ter a disciplina de organizar e estruturar dados (Machine Readability) para que as IAs leiam a marca sem alucinar.
- Conexão Humana: injetar mais vulnerabilidade, humor, afeto e contexto real do que nunca em suas mensagens.
No fim do dia, a IA pode até ajudar a preencher a folha em branco, processar dados em segundos e colocar palavras bonitas na tela. Mas quando a sua empresa quiser inspirar um colaborador em um momento difícil, ou encantar um cliente com uma história que gere verdadeiro orgulho, quem ditará o ritmo não será um algoritmo.
E, acredite, as pessoas do outro lado da tela continuam sabendo exatamente a diferença.

Por Nathália de Oliveira, Senior Copywriter na United Minds.
O texto acima foi produzido por um parceiro Dialog, tendo seus direitos reservados. A Dialog não se responsabiliza pelo conteúdo deste artigo, sendo de inteira responsabilidade de seus autores.




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