Falar de Comunicação Interna para equipes frontline (linha de frente) é reconhecer uma verdade muitas vezes negligenciada: a maior parte da força de trabalho global não trabalha sentada diante de um computador. Estima-se que 80% dos trabalhadores no mundo são “deskless”, desempenhando funções em varejo, logística, saúde, manufatura, atendimento e operações em campo. É um contingente gigantesco, responsável por sustentar a operação de empresas de todos os setores, mas que historicamente recebe menos acesso, contexto e clareza sobre os rumos da organização.
Os dados mostram o impacto dessa lacuna. Um levantamento da Staffbase em parceria com o instituto YouGov, divulgado em 2025, revelou que apenas 10% dos trabalhadores não-desktop declaram estar muito satisfeitos com a comunicação que recebem. A mesma pesquisa aponta que essa população se sente menos informada, menos conectada à liderança e menos capaz de compreender as prioridades estratégicas da empresa, quando comparada aos profissionais de escritório. Ao mesmo tempo, o estudo “Wake Up Call for Business Leaders”, também da Staffbase, destaca que a insatisfação com a comunicação é um dos fatores que mais influenciam decisões de desligamento.
O cenário brasileiro ecoa essa realidade. Segundo levantamento citado pelo portal Você RH, 63% dos funcionários que pensam em deixar seus empregos apontam a má Comunicação Interna como uma das principais razões. É um dado que revela que, para além de benefícios ou salários, a capacidade de informar, orientar e escutar tem peso direto no engajamento e na retenção.
Ainda que involuntária, a exclusão de trabalhadores frontline das rotinas de Comunicação Interna não acontece por falta de reconhecimento da importância desse público, mas por barreiras estruturais. Muitos desses profissionais não têm e-mail corporativo, não acessam intranets e trabalham em turnos ou ambientes sem computadores ou interfaces fixas. A consequência é grave: criam-se ecossistemas paralelos de informação, dependentes de cascatas informais ou de aplicativos pessoais, o que aumenta riscos de distorção, insegurança e assimetria de entendimento.
Diante desse contexto, ampliar o alcance da Comunicação Interna deixou de ser apenas um movimento de eficiência: tornou-se também um compromisso com inclusão, cultura e coerência organizacional.
Quando a Comunicação Interna inclui, a empresa avança
Os efeitos positivos de uma Comunicação Interna verdadeiramente inclusiva são amplamente documentados. Empresas que priorizam a comunicação com frontline registram maior produtividade, menor retrabalho e melhor adesão a processos críticos de segurança, especialmente em equipes operacionais. Um fluxo de informação claro reduz erros, antecipa problemas e acelera decisões.
Há também um impacto profundo na cultura organizacional. Pesquisas da Staffbase mostram que trabalhadores frontline que se sentem informados têm maior confiança na liderança, maior senso de pertencimento e maior disposição para atuar como embaixadores da marca. Em setores como varejo, saúde e logística comunicar bem significa, na prática, melhorar a experiência do cliente.
Essa conexão cultural é particularmente relevante num contexto de alta competitividade e instabilidade econômica. Organizações que conseguem reforçar seus valores, dar visibilidade a prioridades estratégicas e explicar o “porquê” das decisões constroem relacionamentos mais sólidos com suas equipes. Comunicação Interna, nesse sentido, não é apenas sobre enviar mensagens, mas sobre criar significado.
Onde as empresas ainda tropeçam
Mesmo reconhecendo a importância desse público, muitas organizações ainda insistem em modelos de comunicação pensados exclusivamente para ambientes de escritório. A lógica é replicar canais tradicionais (newsletters, intranets, e-mails) sem considerar realidades práticas de acesso e rotina.
Outro erro recorrente é depender excessivamente da liderança intermediária como único elo entre estratégia e a linha de frente. Embora gestores operacionais sejam fundamentais na tradução de mensagens, transferir a eles toda a responsabilidade cria vulnerabilidade: diferenças de estilo, sobrecarga de demandas e falta de preparo resultam, muitas vezes, em comunicados incompletos, tardios ou desalinhados.
Há também a tendência de comunicar apenas “informações operacionais”, sem integrar visão, cultura e propósito. Trabalhadores frontline, assim como qualquer profissional, querem entender como seu trabalho contribui para o todo. O risco é restringir a comunicação a “o que fazer” e nunca abordar “por que isso importa”.
E, claro, existe o desafio tecnológico. Muitas empresas ainda não adotaram canais móveis oficiais, plataformas seguras ou apps corporativos capazes de segmentar, publicar e mensurar conteúdo para públicos fora do desktop. Sem infraestrutura adequada, inclusão comunicacional permanece como intenção, não prática.
Da intenção à prática: Comunicação Interna como ponte de inclusão
Frente a esse cenário, o papel da Comunicação Interna ganha nova amplitude. Não se trata mais apenas de “informar”, mas de construir pontes – tecnológicas, culturais e relacionais – que conectem trabalhadores da linha de frente ao centro das decisões da empresa.
Isso passa por repensar canais, linguagens e formatos. Exige considerar acessibilidade, tempo, rotina e familiaridade digital desses profissionais. Requer construir narrativas consistentes e transparentes, com foco no impacto direto que cada tema tem no trabalho de quem está no campo, na rua, no estoque, na fábrica ou no atendimento.
E, sobretudo, demanda uma mudança de olhar: Comunicação Interna não pode ser privilégio de quem está na frente do computador. Ela precisa ser um direito organizacional, condição para que todos compreendam, contribuam e se sintam parte da mesma história.
Algumas organizações já demonstram que é possível superar as barreiras de comunicação com a linha de frente. Em setores como varejo, logística e manufatura, empresas que adotaram plataformas mobile first ampliaram de forma significativa o alcance da comunicação ao permitir que colaboradores em campo recebessem informações estratégicas diretamente no celular.
Outras investiram em telas e painéis digitais em áreas comuns, como refeitórios e corredores de operações, aproximando o conteúdo institucional da rotina diária e reduzindo a dependência de mensagens passadas informalmente entre turnos. Esses exemplos mostram que, quando a infraestrutura se adapta ao contexto de quem está na linha de frente, o alinhamento e a clareza crescem de maneira consistente.
Também há casos em que a transformação cultural ganhou força com iniciativas desenhadas especificamente para alcançar equipes não desktop. Empresas que segmentam mensagens por unidade, turno ou função conseguiram entregar conteúdo mais relevante e útil, fortalecendo pertencimento e senso de direção.
Nesse contexto, incluir equipes frontline não é apenas ampliar o alcance da informação, mas ampliar o alcance da própria cultura. Comunicação Interna, quando verdadeiramente inclusiva, transforma trabalhadores em protagonistas da estratégia e reforça o compromisso da empresa com todas as pessoas que fazem o negócio acontecer.

Por Roberto Ângelo, Gerente de CI no Grupo In Press.
O texto acima foi produzido por um parceiro Dialog, tendo seus direitos reservados. A Dialog não se responsabiliza pelo conteúdo deste artigo, sendo de inteira responsabilidade de seus autores.




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